Desde 1821, o território brasileiro era dividido no formato de províncias. A Constituição brasileira de 1824 (“Constituição Política do Império do Brazil”) no artigo 165 previa que cada Província teria um presidente nomeado pelo Imperador, que poderia removê-lo quando quisesse, visando o bom serviço do Estado. Sendo assim, em janeiro de 1876 assume a presidência da Província do Espírito Santo o Dr. Manoel José de Menezes Prado, após ser nomeado por carta imperial em dezembro de 1875.
Em outubro de 1876, em relatório apresentado na Instalação da Assembleia Provincial do Espírito Santo, o presidente da Província fez uma descrição da situação da região em cerca de 75 páginas.
Em março daquele ano, por problemas de saúde da Imperatriz do Império, Teresa Cristina, ela e o esposo, o Imperador Dom Pedro II, viajaram para os Estados Unidos. Dessa forma, quem assumiu a regência do Império foi a princesa Isabel.
Imperador Dom Pedro II em 1875 e Teresa Cristina em 1877.
Em relação aos anos anteriores, a quantidade de crimes cometidos na região havia diminuído. Mesmo assim, havia superlotação dos presídios da Província, e estes estavam em péssimo estado, precisando de urgentes reparos. Havia falta de equipamentos e armamentos para a polícia e os trabalhos da guarda municipal foram classificados pelo presidente como ineficientes em cumprir com os objetivos da sua criação, tendo como maior contribuição o aumento das despesas públicas.
Até mesmo o estado das paróquias da Província era muito ruim pela falta de zelo e conservação dos templos, o que na opinião do presidente contribuía para a diminuição da fé dos brasileiros. Havia 26 paróquias na província. Destas, 6 tinham párocos, enquanto 12 não tinham párocos e 8 tinham párocos nomeados e estavam à espera que estes assumissem seus postos.
Em relação à saúde pública, o presidente considerou boa a situação da província, citando alguns casos de febre de fundo palustre, que não foram fatais, e diversos casos de febre amarela que, segundo ele, foram importados do Rio de Janeiro, onde havia uma epidemia da doença. Foram tomadas medidas para que a epidemia não ocorresse também no Espírito Santo e, assim, controlou-se a manifestação da doença na província.
Houve também grande intensidade de casos de varíola em São Mateus. Já havia vacina para a doença, mas esta era pouco procurada pela população que, segundo o presidente, ainda não havia compreendido os efeitos positivos da vacina. Sendo assim, ele propunha a obrigatoriedade da aplicação delas.
O nível de instrução do povo era considerado insatisfatório naquela época, mesmo com o ensino sendo, segundo o presidente, devidamente estabelecido na província. A frequência nas escolas primárias e nos estabelecimentos de ensino secundário era pequena. O relator afirma que o gosto pelo estudo ainda não se achava suficientemente desenvolvido na população. Foram contadas 58 escolas de ensino primário para ambos os sexos, sendo estas frequentadas em 1875 por 1270 alunos e 320 alunas. Havia 58 professores. Conclui-se então que havia 1 professor para cada escola e uma média de 27 alunos para cada professor.
Sobre a importância da educação, declarou o relator que “O cidadão instruido é um homem duplicado. A instrução abre o cidadão um mondo novo, o do espírito, muito mais vasto e mais fecundo que o da maioria. O futuro das nações, diz com rasão um distinto escriptôr, depende do gráu de instrução que ellas attingerem. Compenetradas d'esta verdade as nações civilisadas porfião em derramar e diffundir a instrucção por todas as classes sociaes” (PRADO, 1876, p. 21).
A agricultura da Província era ruim. Não havia progresso nessa área e os agricultores desconheciam ou desprezavam todos os instrumentos modernos que os países mais ricos já utilizavam. A agricultura da província vivia da fertilidade do solo e do preço vantajoso do café, seu principal produto de exportação. Enquanto isso, a lavoura da cana definhava. O presidente chamou a atenção para o fato de que a lavoura brasileira não estava recebendo a devida atenção dos poderes públicos, mesmo sendo o país tão dependente dela para a sua prosperidade e desenvolvimento. "Quem observa o empenho com que promove-se na França, na Bélgica e em outros paizes o progresso da agricultura, admira-se do pouco que se tem feito no Brasil em benefício de sua principal industria" (PRADO, 1876, p. 30). Os altos juros amedrontavam os agricultores, que já estavam endividados ou que não queriam ficá-lo, por isso não animavam-se em empreender.
O presidente também relata a situação da colonização e imigração, a qual ele classifica como "a mais preocupante questão" sendo debatida no país e que ele próprio não tinha uma solução para o caso. Reconheceu a necessidade de colonização das áreas pouco povoadas mas criticou a forma como os imigrantes eram recrutados, destacando o fato de que o país não tinha condições financeiras para receber os imigrantes de maneira adequada.
Um recorte do jornal O Cachoeirano, de 29 de janeiro de 1887, demonstra que, mais de dez anos depois, as condições para recepção dos imigrantes ainda não haviam melhorado:
O presidente ainda explicou que os agentes particulares que se
dedicavam ao trabalho de recrutar os imigrantes, denominados
“Companhias” ou “Associações” recebiam premiações por
cada imigrante "conquistado". Nessa "conquista",
segundo ele, eram feitas falsas promessas a esses imigrantes, os
quais ele chamou de "vagabundos e proletários que por espírito
de aventura desejam viajar" (PRADO, 1876, p.38). Segundo o
presidente, essas falsas promessas criavam um desapontamento quando
os imigrantes chegavam ao país e conheciam a verdadeira situação,
o que levava a um problema de mudanças constantes desses imigrantes
por várias cidades e estados do país.
Franceschetto (2014, p.129) esclarece que os imigrantes italianos que ocupavam a província do Espírito Santo eram principalmente “agricultores, de religião católica, procedentes em ampla maioria da região Norte daquele país, distribuídos em 6.930 núcleos familiares, o que perfaz uma média de 4 a 5 indivíduos para cada agrupamento familiar, ou seja: o pai, a mãe e dois ou três filhos menores. Outros 5.198 vieram desacompanhados de familiares”. Sendo a maioria dos imigrantes membros de núcleos familiares com esta descrição, parece um tanto injusta a atitude do presidente de classificá-los como "vagabundos e proletários que por espírito de aventura desejam viajar".
Em relação às constantes mudanças dos imigrantes por várias cidades e estados do país, Franceschetto (2014, p.87) relata que existem “536 passaportes familiares (450 de italianos, 73 de samarinenses e 13 de ucranianos) sob a custódia do APEES (Arquivo Público do Estado do Espírito Santo). Trata-se de documentos privados que deveriam estar de posse das famílias e certamente foram confiscados no ato do desembarque dos imigrantes com o objetivo de dificultar, senão impedir, a saída das famílias do território capixaba caso tomassem essa decisão”.
Não são relatadas as datas desses passaportes, mas é um fato que demonstra que era comum os imigrantes se decepcionarem com a situação da província do ES e saírem em busca de um território com melhores condições. Essa foi a atitude tomada pelos Capetti, que desembarcaram no Espírito Santo em dezembro de 1876. Não se sabe exatamente quanto tempo ficaram por lá, mas em 1878 já encontra-se o registro de casamento de Francesco Capetti em Santa Catarina, tendo seu irmão Angelo Capetti como testemunha do ato.
Foto: Victor Frond, 1860. Acervo coleção Theresa Cristina Maria,
Biblioteca Nacional.
“Grupo de colonos e possivelmente alguns escravos, estes pertencentes a fazendeiros da região. Assim eram as habitações provisórias construídas pelos colonos, por entre clareiras abertas em meio às densas florestas” (FRANCESCHETTO, 2014, p. 56). Possívelmente foi um cenário parecido com este que os Capetti encontraram ao chegar ao núcleo Timbuhy.
Referências:
Referências:
FRANCESCHETTO, Cilmar. Imigrantes - Espírito Santo. Arquivo Público
do Estado do Espírito Santo: Vitória, 2014.
PRADO, Manoel José de Menezes. Relatório do Presidente da Província
do Espírito Santo, na instalação da Assembleia Provincial. 1876.



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